DIARIO DA ILHA: Ponte ligando Brasil e Guiana Francesa nunca foi inaugurada.

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sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Ponte ligando Brasil e Guiana Francesa nunca foi inaugurada.

A ponte entre Brasil e Guiana Francesa que ninguém pode cruzar
Ponte sobre rio Oiapoque foi terminada há quatro anos, mas ainda está fechada

PARE!!! Identifique-se", diz uma placa amarela e preta no extremo brasileiro da ponte entre a América Latina e a União Europeia - e, se alguém ultrapassa os limites demarcados pelo arame, um guarda aparece ao longe e grita: "Volte!". O grito rompe o silêncio reinante na imponente obra cinza e vazia sobre o o rio Oiapoque, cujas águas marcam a fronteira entre o Brasil e a Guiana Francesa , na selva amazônica. Ainda que a ponte estaiada de pilares de concreto de 378 metros de comprimento tenha sido terminada há quatro anos, nunca foi inaugurada , e seu uso está proibido.


Essa demora é um enigma para os moradores dos dois povoados remotos em ambos os lados do rio: Oiapoque na margem brasileira e St. Georges na francesa. "Para qualquer brasileiro e francês é o maior mistério: por quê? Faz anos que está pronta", diz Alexandra Costa, dona de casa de 34 anos, enquanto tem as unhas dos pés feitas em um salão de beleza em Oiapoque.



Monumento à ineficiência

A obra foi anunciada oficialmente em 1997 pelos presidentes da França e do Brasil à época, Jacques Chirac e Fernando Henrique Cardoso. "Ouvi falar da ponte pela primeira vez em 1973", conta Auxilio Cardoso, um aposentado brasileiro de 71 anos, sobre uma das lanchas que transportam as pessoas de um lado ao outro do rio. Ele está indo a St. Georges "comprar um perfume francês para o Natal" e passa sob a ponte. Questionado sobre quanto falta para inaugurá-la, dá de ombros, leva as mãos ao céu e responde sorrindo: "Não sei". De fato, ninguém na região parece saber essa resposta. Com um custo para ambos os governos de US$ 30 milhões (R$ 118,5 milhões) , a ponte foi construída com base na premissa de que impulsionaria o intercâmbio e o desenvolvimento destes rincões perdidos do Brasil e da França. A Guiana Francesa é a última área continental sul-americana que ainda pertence a uma ex-potência colonial. É um território ultramarino da França e, como tal, faz parte da União Europeia e tem o euro como moeda oficial. E a ponte prometia reduzir o isolamento que marca sua história. Mas, agora, muitos veem a moderna estrutura como um monumento à ineficiência governamental, à burocracia e às diferenças entre os dois países . "É bonita, mas está parada", reflete Deus Bahia da Silva, um comerciante de 40 anos, ao observar a ponte a partir da margem brasileira, ao lado de barcos de pescadores. "Nosso Brasil está complicado, os governantes não querem olhar pelo povo, só por eles mesmos", ele acrescenta. "Oiapoque não tem nada. Nós cassamos um prefeito, agora temos outro e nada. Nem praça tem aqui: faz anos que as obras dela estão paradas também."



Vantagens e desvantagens
Oiapoque fica na margem brasileira do rio do qual leva o nome
Do lado da Guiana Francesa, fica o povoado de St. Georges

Entre os habitantes dos dois povoados, há divergências sobre as vantagens e prejuízos que a ponte trará , como se fosse uma enorme criatura adormecida sempre a ponto de despertar. "Oiapoque vai ficar cheia de gente", diz Roberto Carlos, de 42 anos, enquanto joga em uma tenda de tiro ao alvo com pistolas de ar comprimido, como as de parques de diversão, mas que, na cidade, fica em uma das ruas principais. "Vai ser melhor para fiscalizar, porque agora tem muita mercadoria de contrabando", afirma Jessica Santos, uma jovem de 23 anos que está desempregada, em frente à praça de St. Georges. De um lado, está a prefeitura do povoado, ao fim de uma esplanada cheia de besouros mortos. As bandeiras da França e da União Europeia tremulam no ar quente e úmido. No corredor da entrada, envelhecem fotos de Chirac e Cardoso do dia em que visitaram St. Georges e anunciaram a obra.
Motorista de lancha não sabe com o que trabalhará após a ponte abrir

Outros acreditam que a ponte afastará os turistas, que seguirão em frente rumo às cidades mais próximas de Caiena, em solo francês, e Macapá, no brasileiro, sem precisar parar por algumas horas nos povoados, como fazem agora. "Não vai ser bom, porque vai precisar de um carro para cruzar o rio e vai sair mais caro", diz Marlady da Silva, uma brasileira de 30 anos que vive em Oiapoque e vai todos os dias para St. Georges de lancha para trabalhar em uma lanchonete onde se cobra em euros. Seus filhos perguntam o que ela vai fazer quando a ponte abrir. O custo da passagem para atravessar a fronteira em 10 minutos custa R$ 16, e há umas 200 lanchas que fazem este serviço dia e noite, diz Reginaldo Pena de Moraes, que, com 57 anos, ganha a vida sobre uma delas. Ele conta que seus três filhos o questionam sobre qual será seu trabalho após a abertura da ponte. "Só vamos descobrir depois que inaugurarem" , ele responde. "Não sabemos quando, mas isso vai acontecer."
Placas e arames indicam os limites até onde é possível ir
Cabines do lado da Guiana estão instaladas, mas não há funcionários



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